• Cotidiano da volta

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    Despeço-me, todos insistem para eu ficar, falo que não posso, me chamam de sem graça. Levanto da mesa, a noite foi divertida, caminho para o metrô. Fiquei tempo demais, misto de emoção de arrependimento por não ter ido embora cedo, mas felicidade por ter ficado mais um pouco.

    Primeira baldeação, chego no trem e que droga, já são 10 horas. Domingo o guardinha da rua não trabalha, não rola nem dar um toque. Esse trem vive lento. Será que desço no Jurubatuba e pego um táxi? Não, para de ser trouxa, você não tem dinheiro pra isso.

    Desço no terminal Grajaú, saio correndo, o ônibus tá parado, vai dar tempo, corre, droga, foi embora… Ótimo, o próximo só as 11.

    Chegou, ufa… Daqui a 10 minutos estou em casa. O cobrador tá encarando minha perna, trouxa. Meu pai deve estar dormido. Trouxa, para de olhar pra mim com essa cara. Odeio ônibus vazio. Por que fui sair com essa saia? Puxo a saia. Lógico que ia chamar atenção, logo uma saia curta. Puxo a saia. Mas na hora que saí de casa estava me sentindo tão bonita, e é dificil eu me sentir bonita. Puxo a saia.

    Dou sinal, tomara que o motorista veja. Droga, parou longe do ponto. “Beijo morena”? Sério cobrador? Nem te conheço. Se eu não tivesse correndo mandava a merda. Fico quieta. Aliás, sou preta, nada de morena.

    Pior ponto de ônibus, em frente a esse terreno enorme, vazio, cheio de mato e aberto. Já vi as barraquinhas do pessoal que usa crack ali. Semana passada arrastaram uma menina lá. Sei lá, é o que a vizinha disse. Não dúvido.

    Bom, coloquei celular no sutiã, me sinto melhor assim. Droga, esse beco. Pelo beco chegaria mais rápido em casa, mas já me seguiram por ali. Esquece.

    Odeio essa avenida, essa calçada, sempre tem um rato saindo da parede desse colégio. Ah, falei, rato nojento. Vou andar rápido.

    Ou vou pela calçada da praça, ou vou pelo outro lado que tem um outro pessoal que usa crack. A praça tem sempre um cara estranho. Olha ele lá fumando, vou pelo outro lado mesmo. Bom, eles estão dormindo, vou por ali. Não acordem, por favor, não acordem, por favor. Ufa, passei.

    Ok, estou chegando. Ótimo, as luzes da rua estão apagadas. Vou andar rápido. Esse barulho. São passos? Droga, são passos. Olho pra trás? Se eu olhar pra trás pode ser pior. Droga, os passos estão perto. E se eu acelerar o passo? A pessoa vai desconfiar. Mas nesse ritmo que estou ele está vindo muito perto. Deve ser homem, mulher não anda sozinha por aqui a noite. Não era pra eu estar sozinha por aqui a noite. Não posso mais chegar tarde. Mas então será que eu corro? Minha casa é ali.

    Droga, vou chorar. E se eu abrir o portão e ele entrar? Mas pelo menos meu pai está ali. E se ele estiver armado? E se ele me puxar pro terreno? Por que não cortam o mato daquele terreno? Vou andar mais rápido. Pera, barulho, que barulho é esse? Portão? Vou olhar rápido pra trás. Ah, ele mora na casa azul. Ufa.

    Cheguei, abrindo o portão, droga, um cara entrando na rua. Fecha cadeado. Rápido. Bosta de cadeado. Fechou. Ah, ufa, alivio ver a porta de casa. “Oi Queen”, sai senão você vai rasgar minha meia, cachorra doidinha.

    – Pai?
    – Oi filha, tô aqui fora fumando.

    – Tudo bem?

    – Tudo, chegou tarde.

    – É.

    – E aí, tudo certo?

    – Ah, normal, o de sempre.

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